[Resenha] Só Garotos

Muito já se falou sobre Robert, e outras coisas ainda serão ditas. Os rapazes imitarão seu jeito de andar. As garotas usarão vestidos brancos e chorarão por seus cabelos cacheados. Ele será condenado e adorado. Seus excessos serão malditos e romanceados. Por fim, descobrirão a verdade em seu trabalho, o corpo físico do artista. Isso não se afastará. Os homens não podem julgá-lo. Pois é a Deus que a arte canta, e afinal pertence a ele.

capa

Em “Só Garotos”, a cantora Patti Smith faz um relato cru e emotivo de sua vida com o fotógrafo Robert Mapplethorpe na Nova York dos anos 60 e 70 e seu relacionamento com anônimos e lendas vivas do mundo underground americano, desde sua juventude, onde dividia a rua com mendigos e contava os centavos para poder sobreviver, até sua ascensão a estrela do rock americano.

O livro foi uma promessa que Patti fez a Robert antes deste morrer de Aids, em 1989. O resultado é uma ode ao amor verdadeiro, tanto a Robert quanto aos ideais e aspirações de vida, permeados de fatos e anedotas da época. A aspiração de um em se tornar um artista reconhecido por seu trabalho e talento, acaba por levar o outro a trilhar caminhos antes não considerados como possibilidades.

Descobertas sobre sexualidade, amizade, amor e morte são entrelaçadas por um relato biográfico autêntico e sem rodeios da época, por uma amizade (e um amor) que transcende o tempo e faz com que duas pessoas continuem unidas para além de todos os problemas que possam surgir. Enquanto ambos vêem o fim prematuro de seus ídolos, a entrega de outros às drogas e aos relacionamentos supérfluos e interessados, Patti e Robert (apesar de inseridos no mesmo contexto social e sujeito às mesmas influências) conseguem, apoiando-se mutuamente, embora nem sempre juntos, trilhar um caminho próprio que os leva, cada vez mais, ao reconhecimento e independência tão almejados.

Leia abaixo um trecho do livro:

Nasci em uma segunda-feira, na zona norte de Chicago, durante a grande nevasca de 1946. Cheguei um dia antes do previsto, e, como todo bebê nascido na véspera do ano-novo, saí do hospital com uma geladeira nova de presente. Apesar dos esforços da minha mãe para me segurar dentro de si, ela começou um difícil trabalho de parto quando o táxi se arrastava ao longo do lago Michigan, através de um turbilhão de neve e ventania. Segundo meu pai, eu era uma coisinha magricela e comprida com broncopneumonia, e ele me manteve viva segurando-me sobre uma tina fumegante de lavar roupa.

Minha irmã Linda veio durante outra nevasca, em 1948. Por necessidade, fui obrigada a crescer e aparecer depressa. Minha mãe passava roupa, enquanto eu ficava sentada no alto da escada da casa onde alugávamos nossos cômodos esperando o entregador de gelo e a última das carroças puxadas por cavalo. Ele me dava lascas de gelo embrulhadas em papel pardo. Eu guardava uma no bolso para dar a minha irmãzinha, mas, quando procurava depois, descobria que havia sumido.
Quando minha mãe ficou grávida do meu irmão, Todd, saímos daqueles cômodos abarrotados em Logan Square e migramos para Germantown, Pennsylvania. Nos anos seguintes moramos em um alojamento temporário feito para funcionários públicos e suas famílias — barracões caiados que davam para um terreno abandonado cheio de flores silvestres. Chamávamos esse terreno de O Canteiro, e no verão os adultos ficavam ali sentados, conversando, fumando cigarros e bebendo licor de dente-de-leão, enquanto nós, crianças, brincávamos. Minha mãe nos ensinou as brincadeiras de sua infância: estátua, pega-pega e seu mestre mandou. Fazíamos colares de margaridas para enfeitar o pescoço e guirlandas para coroar a cabeça. À noitinha, colecionávamos vaga-lumes em vidros de conserva, tirávamos as luzes e fazíamos anéis para os dedos.

Minha mãe me ensinou a rezar; ensinou-me a oração que a mãe dela havia lhe ensinado. “Agora que vou dormir, peço ao Senhor que cuide da minha alma.” À noite, eu me ajoelhava diante de minha caminha enquanto ela ficava de pé, com seu eterno cigarro, ouvindo-me repetir depois dela. Eu só queria fazer minha oração, mas aquelas palavras me perturbavam, e eu a enchia de perguntas. O que é a alma? De que cor ela é? Eu desconfiava de que minha alma, travessa, podia fugir enquanto eu sonhava e não conseguir mais voltar. Fazia de tudo para não pegar no sono, para manter a alma dentro de mim, onde era seu lugar.

Talvez para satisfazer minha curiosidade, minha mãe me matriculou na escola dominical. Aprendíamos a decorar versículos da Bíblia e palavras de Jesus. Depois, ficávamos em fila e recebíamos como recompensa uma colherada de mel. Havia uma única colher no vidro para servir a todas as crianças que estavam com tosse. Instintivamente esquivei-me da colher, mas rapidamente aceitei a ideia de Deus. Agradava-me imaginar uma presença acima de nós, em perpétuo movimento, como estrelas líquidas.

Não satisfeita com minha oração infantil, logo pedi a minha mãe que me deixasse fazer minha própria reza. Fiquei aliviada quando não precisei mais repetir as palavras “E, se eu morrer antes de acordar, rezo ao Senhor para minha alma levar”, e pude dizer em vez disso o que estava dentro do meu coração. Assim liberada, eu me deitava na cama junto ao fogão de carvão recitando vigorosamente longas cartas para Deus. Eu não era de dormir muito e devo tê-lo importunado com minhas juras, visões e esquemas intermináveis. Mas, conforme o tempo passou, vim a experimentar um tipo diferente de oração, uma oração silenciosa, que exigia mais escuta do que fala.

Minha pequena torrente de palavras dissipou-se em uma elaborada ideia de expansão e refluxo. Foi minha entrada na radiância da imaginação. Esse processo aumentava especialmente nas febres de gripe, sarampo, catapora e caxumba. Tive todas elas, e em cada uma adquiri o privilégio de um novo nível de consciência. Bem no fundo de mim mesma, com a simetria de um floco de neve girando acima de mim, intensificando-se através das minhas pálpebras, capturei o mais valioso suvenir, um caco do caleidoscópio do céu.

Meu amor pelas orações foi aos poucos se equiparando ao meu amor pelos livros. Eu me sentava aos pés da minha mãe, vendo-a beber seu café e fumar seu cigarro, com um livro no colo. Ela ficava tão absorta que aquilo me intrigava. Ainda antes do jardim de infância, eu gostava de olhar os livros dela, sentir o papel e erguer a folha que cobria as estampas dos frontispícios. Eu queria saber o que havia ali, o que capturava sua atenção tão profundamente.

Quando minha mãe descobriu que eu havia escondido seu exemplar carmesim do Livro dos mártires, de Foxe, embaixo do travesseiro, na esperança de absorver seu significado, ela me fez sentar e começou o trabalhoso processo de me ensinar a ler. Com grande esforço fomos juntas da Mamãe Ganso até o Doutor Seuss. Quando avancei e não precisava mais de instruções, permitiram que eu me juntasse a ela em nosso sofá ultraestofado, ela lendo As sandálias do pescador e eu Os sapatos vermelhos.

Eu era absolutamente fascinada pelos livros. Queria ler todos, e as coisas sobre as quais eu lia criavam novos anseios. Talvez fosse à África oferecer meus serviços a Albert Schweitzer ou, com meu chapéu de guaxinim e chifre de pólvora, defender as pessoas, como Davy Crockett. Eu poderia escalar os Himalaias e viver em uma caverna girando uma roda de preces, mantendo a Terra girando. Mas a necessidade de me expressar era meu desejo mais intenso, e meus irmãos foram os primeiros cúmplices conspiradores nas lavras da minha imaginação. Eles ouviam atentamente as minhas histórias, participavam de bom grado das minhas peças e combatiam bravamente em minhas guerras. Com eles do meu lado, qualquer coisa parecia possível.

Nos meses de primavera, eu estava quase sempre doente e assim condenada a ficar de cama, brigada a ouvir meus camaradas brincando pela janela aberta. Nos meses de verão, os pequenos relatavam à minha cabeceira o quanto de nosso terreno silvestre estava seguro diante do inimigo. Perdemos várias batalhas na minha ausência, e meus soldados exaustos se reuniam ao redor da minha cama e eu lhes dava uma bênção tirada da bíblia de toda criança-soldado, Um jardim de poemas infantis, de Robert Louis Stevenson.

No inverno, construíamos fortes de neve e eu liderava nossa campanha, servindo como general, fazendo mapas e traçando nossas estratégias conforme atacávamos e batíamos em retirada. Travávamos as guerras de nossos avós irlandeses, do laranja e do verde. Vestíamos laranja, embora não soubéssemos nada de seu significado. Eram simplesmente as nossas cores. Quando a atenção esmorecia, eu declarava trégua e ia visitar minha amiga Stephanie. Ela vinha convalescendo de uma doença que eu não entendia o que era, uma espécie de leucemia. Era mais velha do que eu, talvez tivesse doze anos quando eu tinha oito. Eu não tinha muito o que dizer e talvez representasse pouco consolo para ela, no entanto ela parecia adorar a minha presença. Acho que o que realmente me atraía nela não era meu bom coração, mas um fascínio por seus pertences. Sua irmã mais velha pendurava minhas roupas molhadas e nos trazia chocolate quente e bolachas em uma bandeja. Stephanie ficava recostada em uma pilha de travesseiros, e eu contava histórias ou lia quadrinhos para ela.

Eu era fascinada por sua coleção de histórias em quadrinhos, pilhas de revistinhas recebidas ao longo de toda uma infância de cama, todos os números do Superman, da Luluzinha, dos Classic Comics e de House of Mystery. Em sua velha caixa de charutos havia todas as miniaturas da sorte de 1953: uma roleta, uma máquina de escrever, um patim de gelo e talismãs no formato de todos os quarenta e oito estados americanos. Eu era capaz de brincar infinitamente com elas e às vezes, se ela tinha alguma repetida, me dava uma.

Eu tinha um compartimento secreto perto da minha cama, embaixo das tábuas do assoalho. Ali guardava meu estoque — bolinhas de gude conquistadas, figurinhas trocadas, artefatos religiosos que eu salvara de lixeiras católicas: velhos santinhos, escapulários esmaecidos, santos de gesso com mãos ou pés lascados. Ali eu guardava meu espólio vindo de Stephanie. Algo me dizia que eu não devia aceitar presentes de uma menina doente, mas eu aceitava e os escondia, um tanto envergonhada.

Eu havia prometido que a visitaria no Dia dos Namorados, mas não fui. Meus deveres de general para com minha tropa de irmãos e meninos vizinhos eram muitos e havia uma neve pesada a ser transposta. Na tarde seguinte, abandonei meu posto para sentar com ela e tomar chocolate quente. Ela estava muito calada e me implorou que ficasse até pegar no sono.

Bisbilhotei sua caixa de joias. Era cor-de-rosa e, quando você abria, saía uma bailarina que parecia uma fada açucarada. Fiquei tão impressionada com um broche de patins de gelo que o escondi na minha luva. Sentei-me imóvel ao lado dela por um longo tempo, e saí em silêncio quando adormeceu. Escondi o broche em meu esconderijo. Dormi um sono entrecortado a noite inteira, sentindo um grande remorso pelo que havia feito. De manhã eu estava passando muito mal para ir à escola e fiquei na cama, afugentando minha culpa. Jurei devolver o broche e pedir que ela me perdoasse.

No dia seguinte era aniversário da minha irmã Linda, mas não haveria festa nenhuma para ela. Stephanie havia piorado, e meu pai e minha mãe foram ao hospital doar sangue. Quando voltaram, meu pai chorava e minha mãe se ajoelhou do meu lado e me disse que Stephanie havia morrido. A tristeza dela logo deu lugar à preocupação quando pôs a mão na minha testa. Eu estava ardendo em febre.

Nosso apartamento entrou em quarentena. Eu estava com escarlatina. Nos anos 50, era um grande perigo porque geralmente virava uma espécie de febre reumática fatal. A porta do nosso apartamento foi pintada de amarelo. Confinada na cama, não pude ir ao enterro da Stephanie. A mãe dela me trouxe suas pilhas de histórias em quadrinhos e sua caixa de charutos cheia de amuletos. Agora eu tinha tudo, todos os tesouros dela, mas estava mal demais até mesmo para olhar para eles. Foi então que senti o peso do pecado, mesmo de um pecado tão pequeno quanto um broche de patins roubado. Refleti sobre o fato de que não importava quão boa eu aspirava a ser, jamais atingiria a perfeição. Nem jamais receberia o perdão de Stephanie. Mas enquanto fiquei ali, noite após noite deitada, ocorreu-me que seria possível falar com ela rezando por ela ou pelo menos pedindo a Deus que intercedesse por mim.

Robert era muito sensível a essa história, e às vezes em um domingo frio e lânguido ele implorava para eu contá-la outra vez. “Conte a história da Stephanie”, dizia. E eu não poupava nenhum detalhe em nossas longas manhãs debaixo das cobertas, recitando histórias da minha infância, sua tristeza, sua magia, enquanto tentávamos fingir que não estávamos famintos. E sempre, quando eu chegava à parte em que abria a caixinha de joias, ele chorava, “Patty, não…”.

Costumávamos rir de nós mesmos quando crianças, dizendo que eu era uma menina má tentando ser boa e que ele era um bom menino tentando ser mau. Com o passar dos anos esses papéis se reverteriam, depois reverteriam de novo, até que acabamos aceitando nossa natureza dual. Contínhamos princípios opostos, luz e trevas.

Eu era uma criança sonâmbula sonhadora. Irritava meus professores com minha facilidade precoce para a leitura e ao mesmo tempo com uma incapacidade de aplicá-la a qualquer outra coisa que eles considerassem prática. Todos acabavam dizendo em seus relatórios que eu sonhava acordada além da conta, que eu estava sempre em algum outro lugar. Onde ficava esse lugar, não sei dizer, mas muitas vezes me levava para um canto, sentada em um banco alto, onde todos podiam me ver usando um chapéu cônico de papel.

Mais tarde eu faria para Robert grandes desenhos detalhados desses momentos comicamente humilhantes e bem-humorados. Ele adorava, parecia gostar de todas as qualidades que me fastavam ou me isolavam dos outros. Com esse diálogo visual, minhas memórias de juventude se tornaram dele também.

Em tempo: o livro vai ganhar uma adaptação cinemátográfica a cargo de John Logan (O Gladiador, O Aviador) e ainda ganhou o National Book Award, o prêmio nacional da literatura dos Estados Unidos, na categoria não-ficção, em 2010.

Nota: 9,0

Ficha Técnica
Título original: Just kids
Editora: Companhia das Letras
Autor: PATTI SMITH
ISBN: 8535917764
Número de páginas: 240

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  • Comentários (2)
  1. Fala a verdade!
    Só dou dica boa, né não?😉

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