[Resenha] O Poderoso Chefão

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Algum dia, e esse dia talvez nunca chegue, eu lhe pedirei que me faça um serviço em troca.

Se você não viveu em Marte pelos últimos 30 anos, você já ouviu falar deste livro (e, com certeza, já viu a trilogia de Coppola).

O livro de Puzo é um brilhante relato da ascensão, influência e poder da Máfia siciliana nos EUA da década de 40, principalmente em Nova York, ao acompanhar o cotidiano da Família Corleone e seu envolvimento com atividades ilícitas, como a exploração da jogatina e o comércio de ilegal de bebida durante a Lei Seca, encobertos por meios “legais” como o controle de sindicatos e a exploração da construção civil e da indústria têxtil.

Como Don de uma das 5 principais famílias mafiosas que controlavam o país na época, Vito Corleone construiu seu império através da violência, eliminando, literalmente, a concorrência, mas, principalmente, construindo uma sólida rede de “amigos”, controlando políticos, sindicalistas e policiais, na base da troca de favores que poderiam, ou não, algum dia ser cobrados.

Apesar de chefe máximo de uma organização criminosa, Don Vito orgulha-se de seu conservadorismo em assuntos como sexo e negócios. A partir da entrada cada vez maior de entorpecentes no território americana, era questão de tempo até a Família ser chamada a tomar uma posição sobre o assunto. Chamado a dar sua proteção ao tráfico e comércio de drogas, o Don recusa-se polidamente. Mas, como sua influência política era essencial para o negócio transcorrer com o mínimo de riscos possível, sua recusa dá início a uma tentativa de eliminá-lo para que seu filho mais velho, Sonny, mais favorável ao novo negócio, assuma o controle da Família.

Com Vito Corleone internado (em vez de morto), Sonny assume o controle da Família e, então, é deflagrada uma guerra entre as 5 Famílias, acarretando na morte do próprio Sonny, a volta de Don Vito ao controle da organização para estabelecer a paz entre as Famílias e a inserção forçada de Michael, filho mais novo do Don, nos negócios do pai, até assumi-los por completo, tornando-se o novo Don Corleone.

Como em todo livro, que não se limita ao período de tempo de um filme (mesmo que seja uma trilogia), os detalhes são mais abundantes e saborosos. Ao se centrar em determinados personagens por vez, Puzo nos mostra um amplo painel da Família Corleone, de seus integrantes e daqueles que estão sob sua influência. O livro narra os acontecimentos mostrados no primeiro e parte do segundo filmes da trilogia, mostrando-nos fatos que sequer são mencionados nos mesmos e permitindo um maior aprofundamento, por parte do autor, na construção dos personagens e da trama (ou melhor: o primeiro e parte do segundo filmes é que têm seus roteiros baseados no livro). O autor, inclusive, foi responsável pela adaptação do livro para a tela, pela qual ganhou um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, junto com Coppola.

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Seja lendo o livro ou vendo os filmes (ou ambos), O Poderoso Chefão é uma excelente pedida para conhecer melhor a formação da sociedade norte-americana após a 2ª. Guerra Mundial e a influência e importância que a Máfia italiana tiveram no desenvolvimento do país (e, talvez, ainda tenham). Para o bem ou para o mal!

Em seu antigo jardim, Michael Corleone descobriu as raízes de onde proviera seu pai. Que a palavra “Máfia” originalmente significava lugar de refúgio. Depois tornou-se o nome de uma organização secreta que surgiu para lutar contra os diligentes que haviam esmagado o país e seu povo durante séculos. A Sicília era uma terra que havia sido mais cruelmente martirizada do que qualquer outra na história. A Inquisição torturara igualmente pobres e ricos. Os barões
proprietários de terras e os príncipes da Igreja Católica exerciam o poder absoluto sobre os pastores e agricultores. A polícia era o instrumento do seu poder e se achava tão identificada com eles que chamar alguém de policial é o maior insulto que um siciliano pode pronunciar contra outro.

Ante a selvageria desse poder absoluto, o povo sofredor aprendeu a nunca trair sua raiva e seu ódio com medo de ser esmagado. Aprendeu a nunca se tornar vulnerável pronunciando qualquer sorte de ameaça, já que dar tal aviso era garantir uma represália rápida. Aprendeu que a sociedade era inimiga dele e assim quando alguém queria vingar agravos ia ao subterrâneo rebelde, a Máfia. E a Máfia consolidou o seu poder dando origem à lei do silêncio, a omertà. Na zona rural da Sicília, um forasteiro pedindo informação sobre a cidade mais próxima não
receberá nem a cortesia de uma resposta. E o maior crime que qualquer membro da Máfia podia cometer era dizer à polícia o nome do homem que o baleou ou lhe fez qualquer espécie de dano. A omertà se tornou a religião do povo. A mulher cujo marido foi assassinado não dirá à polícia o nome do assassino do marido, nem mesmo o do assassino do seu filho, o do violentador de sua filha.

A justiça nunca vinha por parte das autoridades e assim o povo sempre recorrera à Máfia de Robin Hood. E até certo ponto, a Máfia ainda cumprira esse papel. O povo se voltava para o seu capo-mafioso local em busca de auxílio, em qualquer emergência. Ele era o seu assistente social, o seu delegado de distrito que estava à sua disposição mediante uma cesta de comida e um emprego, o seu protetor.

(…)

Michael Corleone compreendeu pela primeira vez por que homens como o seu pai haviam optado por serem ladrões e assassinos em lugar de membros da sociedade legal. A pobreza, o medo e a degradação eram tão grandes que não podiam ser aceitos por alguém de consciência. E na América muitos imigrantes sicilianos acreditavam que lá a autoridade seria igualmente cruel.

Nota: 9,5

Ficha Técnica
Título original: The Godfather
Editora: Bestbolso
Autor: Mario Puzo
Número de páginas: 658

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