[Resenha] Produto

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Depois de séculos de espera, devido à greve dos Correios, eis que recebo minha cópia do “Produto”, de Rafael Química (também conhecido como Rafael Cândido de Oliveira), HQ produzida pelo próprio autor após a participação em um curso de produção de quadrinhos autorais.

Abro o envelope e, confesso, minha primeira impressão foi de desapontamento: uma revista pequena e com meia dúzia de páginas (tá bom, 16). Após uma rápida folheada, mais decepção: umas poucas páginas com 2 linhas de 3 quadrinhos cada, sem texto, impressa em PB com a aplicação de mais uma cor em alguns quadros, que daria para “ler” em 30 segundos (sem nenhum exagero). Meu primeiro pensamento: isso deve ser uma porcaria!

Um amigo meu diz que sou a única pessoa que ele conhece que compra (e lê) qualquer tipo de quadrinhos, seja do mainstream ou independente e conhece coisas de que ele (e muita gente) nunca ouviu falar. Pra fazer jus a essa reputação, deixei minha primeira impressão de lado (já que, ao contrário do que dizem, no final, não é ela que fica) e peguei a revista para ler.

Produto

É impressionante como num mundo de publicações cada vez mais luxuosas, com capas duras e vendas em livrarias, alguns autores conseguem fugir do lugar comum e bancar, sozinhos ou com a ajuda de amigos às vezes desconhecidos (vide o caso do “Achados e Perdidos”) uma publicação autoral, com pequenas tiragens e que fazem circular através do boca-a-boca (ou, pra ser mais moderno, do blog-a-blog).

A revista é pequena, com capa em papel kraft e (me pareceu) impressa em serigrafia, lembrando uma embalagem, com código de barras, sinais de “frágil” e “este lado para cima” e com os contatos do serviço de atendimento ao cliente. É composta por duas histórias, que na verdade é apenas uma, mas contada a partir de dois pontos de vista distintos. A primeira história, contada do ponto de vista do produto do título, que sonha em ficar famoso; e a segunda, contada pelo produtor, que busca fazer dinheiro com seu produto, pra, simplesmente, poder sobreviver.

Pra definir a revista em uma palavra: maravilhosa! Não vou aqui tentar elocubrar sobre a intenção do autor em escrevê-la e que tipo de mensagem quis passar para seus leitores. Eu a entendo como uma crítica a uma sociedade consumista, dita “formadora de opinião”, que cria ícones sem saber como, à custa de sem saber quem se matou para que ela pudesse desfrutar do melhor que a vida tem a oferecer (e, para ser sincero, tenho que me enquadrar em tal classificação, assim como a maioria dos que, por ventura, estejam lendo isto aqui, queiramos ou não).

Devoramos, vorazmente, produtos que nos dizem que devemos consumir (inclusive aqueles que deram seu suor para produzi-los, mas que não conseguem desfrutar dos mesmos), criando ícones de consumo que se hiper-valorizam a cada dia que passa e que são consumidos cada vez mais por cada vez menos (falo de pessoas, não de custo). Enquanto isso, num reino muito, muito distante, as pessoas fazem verdadeiros malabarismos (ás vezes, literalmente) para poder colocar na mesa o pão deles de cada dia.

Ricardo sabe a que veio, e nos diz isso com poucas palavras (ou melhor, com nenhuma). “Produto” foi uma grata surpresa, como tantas outras que têm surgido cada vez mais a cada dia que passa, e faço votos que Rafael nos brinde, em breve, com mais produtos banhados nessa sua química que nos coloca para pensar e agradecer por poder consumi-los.

Pedidos diretamente com o autor, via e-mail ou através de seu blog.

Nota: 9,0

Ficha Técnica
Autor: Ricardo Química
Formato: 10 x 14 cm
Número de páginas: 16
R$5,00 + frete

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