[Resenha] Os Deuses têm Sede

Vejo, cidadão Gamelin, que, revolucionário por tudo quanto há na Terra, é, quanto ao Céu, conservador e mesmo reacionário. Robespierre e Marat são-no tanto como o senhor. E acho singular que os franceses, que já sofrem de rei mortal, se obstinem em guardar um imortal muito mais tirânico e feroz. Pois o que é a Bastilha, e mesmo a câmara-ardente, junto do Inferno? A humanidade copia os seus deuses dos seus tiranos, e o senhor, que rejeita o original, guarda a cópia!

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Em que ponto a virtude humana se transforma em obsessão cega e doentia? É o que Anatole France tenta nos mostrar em “Os Deuses têm Sede”, livro em que narra, desde seu ponto de vista, o ocorrido na França logo após a Revolução Francesa e durante a Era do Terror, período compreendido entre 31 de maio de 1793 (queda dos girondinos) e 27 de julho de 1794 (prisão de Maximilien de Robespierre, ex-líder dos Jacobinos). Durante esse período as garantias civis foram suspensas e o governo revolucionário, controlado pela facção da Montanha dentro do partido jacobino, perseguiu e assassinou seus adversários (um número indeterminado, entre 16.000 e 40.000 pessoas foram guilhotinadas). [Fonte: Wikipedia]

Gamelin, um cidadão do povo, pintor fracassado, que só tem como princípio o Amor à França (e, em segundo plano, à sua mãe e à sua amada), um oposicionista cada vez mais ferrenho da aristocracia e da nobreza, vê-se alçado a jurado nos tribunais que condenavam os (mas não necessariamente) simpatizantes do antigo regime à guilhotina. Sua sede por justiça e a necessidade de se expurgar todo o antigo mal de sua França. acaba fazendo com que ele e seus pares passem a condenar, indiscriminadamente, todo aquele que fosse “julgado” nos tribunais populares.

Sua sede por justiça acaba por transformar-se em uma sede de sangue que, como a dos deuses, precisava ser saciada. E Madame Guilhotina, como governanta cruel do novo regime, tinha que ser abastecida cada vez mais para que pudesse atender a seus senhores. Até que os julgadores passaram a ser julgados…

“Os Deuses têm Sede”, escrito em 1912, é uma obra fundamental para aqueles que querem entender um pouco mais sobre a Revolução Francesa e até que ponto seus ideais foram colocados em prática.

Nota: 8,0

Ficha Técnica
Título original: Les dieux ont soif
Editora: Boitempo Editorial
Autor: Anatole France
ISBN: 9788575590119
Ano: 2007
Número de páginas: 256

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