A morte da indústria de quadrinhos

Alan Moore (ele, de novo), em entrevista ao Newsarama, decretou a morte da indústria de quadrinhos (mais uma vez) e destilou mais um pouco de seu veneno mortal a seus executivos (outra vez). É claro que, quando Moore se refere à indústria de quadrinhos, ele está se referindo à linha de super-heróis e congêneres. Pode ser que algo ainda se salve do previsto cataclisma industrial…

Alan_Moore

Leia parte da entrevista, visto aqui e com tradução de Tavares:

Newsarama: Se você não quiser falar sobre isso eu vou compreender, mas você chegou a ler sobre as mudanças na DC?

Alan Moore: Não, acho que não leio mais nenhuma notícia sobre a indústria de quadrinhos, mas o que eles anunciaram?

Newsarama: Bem, eles estão relançando tudo a partir do número um em setembro e pegando os personagens da Vertigo e colocando de volta no Universo regular da DC. No meio disso o Monstro do Pântano será literalmente ressuscitado como o Alec Holland que se transforma em um elemental-planta – basicamente o contrário da sua história “Lição de Anatomia” – ; John Constantine vai circular pelo UDC; Barbara Gordon volta a ser Batgirl e fora das cadeiras de rodas de Piada Mortal. Algumas pessoas apontaram que este seria um “Universo DC Pós Alan Moore”. Você tem algum comentário sobre isso?

Moore: Na verdade não. Não estou surpreso. De onde estou, não tenho mais nenhum interesse por quadrinhos. Pelo que eu leio nos jornais daqui, todo o mundo dos quadrinhos me parece estar ao ponto de colapso. Parece que as duas maiores empresas estão apanhando feio na medida em que eles tentam remodelar seus universos enfraquecidos usando velhos truques, por que, na verdade, eu não acho que eles tenham novos truques.

Alguns personagens vão ser mortos. Mas sendo quadrinhos, estarão mortos até que despertem interesse suficiente e ai serão revividos novamente. Eles podem levar esses personagens de volta a um tipo de estado pré-Alan-Moore, se é isso mesmo que estão fazendo, mas espero que eles se lembrem o que era aquele estado! (risos)

Como eu disse, é um campo em que eu realmente não penso mais. Acho que provavelmente já está em seus estertores de morte, e eles talvez continuem por um bom tempo, mas eu estou longe disso agora e não tenho opnião sobre esta cena. Posso apenas dizer que sim, isto não me surpreende. Parece o tipo de reinício tosco que uma grande editora de quadrinhos deve tentar, mas isso já é bastante endêmico em toda indústria.

Lembro que encontrei uma notícia em um jornal de domingo alguns meses atrás onde você tinha o cabeça da Marvel Comics dizendo que a Marvel Comics estava contemplando o abismo, mas sem falar exatamente nessas palavras, mesmo que quissesse dizer isso, acho que a palavra que ele procurava era “mergulhando”! E eu penso que as coisas não estão nada melhores na DC.

Então eu acho que nós podemos esperar um monte de revisões e reinícios dessas empresas que predizem representar os murmúrios de morte da indústria e em um nível em que elas mesmas são culpadas. Como você sabe, se o que você falou sobre a DC estiver correto e eles estão mesmo fazendo este retorno ao passado, a um tempo em que eles ainda vendiam mais quadrinhos, então, você sabe, isso é bem previsível, por que me parece que os quadrinhos colocaram a si mesmos em uma posição onde não podem vislumbrar um futuro, e estão eternamente tentanto retornar a um passado onde estavam mais confortáveis.

Eles estão lidando com um mercado que encolhe a cada momento, e vamos ser sinceros, já faz tempo que esse mercado era feito por entusiastas entre nove e treze anos de idade. Este mercado em retração é composto principalmente por pessoas entre trinta e cinquenta anos, que claramente possui uma ligação nostálgica com as leituras de sua infância, e isso é bom. Porém, chegamos a uma situação em que toda indústria esta baseada nisso.

Eu acho que a virada aconteceu provavelmente no final dos anos 60, quando os primeiros escritores, pelo menos os da DC Comics, tentaram formar um sindicato ou algo tolo desse tipo, dai foram imediatamente afastados de seus cargos e substituídos por uma geração de escritores que eram fãs de quadrinhos e que estavam ansiosos por fazer referências as histórias que os tinham impressionado quando eles estavam crescendo.

Isto resulta em um tipo de, em termos de forma artística, em um tipo de incesto, um tipo de endogamia, onde nós (e quando sai da indústria, este foi o caso), você tem histórias que podem apenas fazer referências a outras histórias de cinco, 10, 40 anos atrás. A trama apresenta pedaços de cronologia que a maior parte dos leitores atuais nunca ouviu falar e não tem nenhum interesse.

Levando em consideração que os quadrinhos já foram uma fonte para a imaginação, acredito que os recursos se encurtaram pela diminuição do estoque genético, ou se quiser, das ideias, onde tudo tem de ser um tipo de referência a quadrinhos anteriores. Inevitavelmente isto vai fazer com que o conjunto de genes enfraqueça, ao ponto de termos apenas espécimes defeituosos gerados a partir dele.

Meus sentimento básico com relação a atual indústria de quadrinhos é apenas um desejo de que sua agonia final não seja tão humilhante ou desesperada, por que ela é merecida. Se a indústria é incapaz de apresentar novas ideias e um futuro para sua evolução, então ela realmente não merece sobreviver.

E mesmo que todos nós tenhamos boas memórias desses quadrinhos e personagens, a última vez que olhei para uma prateleira de quadrinhos, não havia nada lá que eu reconhecesse. E mesmo os títulos que eu reconheci tinham personagens completamente diferentes, ou que haviam estado mortos. São as mesmas ideias recicladas infinitamente, e se você está reciclando seu único combustível por décadas, você vai terminar com um produto sem energia. Parece que é isso que está acontecendo com os quadrinhos neste momento.

Tudo isso poderia ser revertido, tudo que seria preciso é uma ideia boa e original. Vamos ver o que acontece e presumir que a história seguirá o caminho de sempre.

Eu não tenho dúvida de que existem alguns exemplos entre o que estamos acostumados a chamar de “Quadrinhos alternativos”, marginais, títulos pequenos, onde há um grande trabalho sendo feito. Sei que Melinda (Gebbie) gosta de alguns mangás modernos que ela acha que tem uma narrativa original e eu acho justo. É só que eu não vejo nada que possa revolucionar a indústria e a linguagem ao ponto de a indústria poder obter um novo sopro de vida.

Tenho certeza que há dúzias de títulos realmente muito bons por ai, mas há muito que não leio nada por falta de tempo, muito menos gibis. Nem me lembro do último livro que lí. Estou envolvido em um processo de escrita ininterrupta e na produção de Dodgem Logic, Jerusalem, e a Liga, que eu terminei a pouco tempo, só faltando a história final em prosa e um monte de outras coisas de outras áreas neste momento.

Eu não tenho mais nem uma televisão pra assistir.

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