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[Resenha] Bento

André Vianco é uma referência nacional quando falamos de livros com uma temática vampiresca. Autor de 13 livros (e mais um quase no prelo), Vianco é o Paulo Coelho dos vampiros. E foi a curiosidade em torno desse autor que me fez ler um livro dele, este Bento que (eu não sabia) faz parte da saga O Vampiro Rei, completada por A bruxa Tereza – O Vampiro-Rei volume 1 e Cantarzo – O Vampiro-Rei volume 2.

A premissa do livro é simples: numa noite como outra qualquer, metade da população mundial adormece e, conforme vão despertando, deparam-se com o mundo dividido entre seres humanos e as famosas criaturas das trevas. As pessoas agora vivem em cidades fortificadas e isoladas, sem comunicação e racionando o pouco de energia elétrica que conseguem produzir, aguardando o despertar do trigésimo Bento, pessoas antes comuns que, em presença dos vampiros, adquirem uma força sobre-humana. O despertar do trigésimo, segundo uma recente profecia, será o estopim para que a humanidade possa exterminar de vez a raça das trevas.

O livro começa exatamente neste ponto, onde o Bento Lucas, o trigésimo, desperta para um mundo novo:

Abriu os olhos. O lugar estava escuro. Só isso sabia. Que estava num lugar escuro.Flexionou os dedos, sentindo e ouvindo-os estralar. Os braços estavam estendidos, rentes aocorpo. A garganta seca. As costas doloridas, como se tivesse dormido mais do que de costume.Precisava levantar e tomar água. Quis erguer os braços, mas estava fraco. Dor. Confusão mental.Onde estava? O estômago ardia e a garganta seca incomodava mais uma vez. Não estava em suacasa… Uma sensação estranha. Como aquelas de infância quando vamos dormir no sítio do tio eacordamos assustados de manhã, olhando para o teto, encontrando um cenário tão diferente donosso habitual. Nessas horas a gente leva um instante para lembrar… Lembranças. Sentiumedo. Tentou levantar-se novamente, mas a fraqueza impedia. Sentiu espasmos musculares naspernas e braços. Cãibras. Dor. Soltou um gemido entre dentes. Tentou pedir ajuda, mas a voznão saiu. O estômago queimava. Tinha alguma coisa espetada no braço. Uma agulha! Não podiaver, mas sabia que tinha uma agulha enfiada no braço. O medo novamente. Os olhosarregalaram e os globos dançaram nervosamente. Onde estava? Não era seu quarto! Sabia quenão era! Não estava em sua casa! Respirou fundo repetidas vezes, com o peito subindo edescendo, parando de retorcer-se de dor e desespero por um momento. Tentava lembrar-se…mas não conseguia. Como eram os móveis em seu quarto? Não conseguia se lembrar de suacasa, mas sabia que estava longe de lá. Em sua casa não estaria com uma agulha espetada nobraço! A mente clamou por calma. Tentava recuperar o controle da respiração. O coração batiadisparado. Talvez estivesse amarrado. Por isso não conseguia mexer-se. Estava amarrado.Respirou fundo. Onde estava? Deus do céu! O que tinha acontecido com sua casa? O que tinhaacontecido consigo? — perguntava-se atropeladamente. — Seqüestro? Doença? Onde estava aluz? Desespero. Os olhos começaram a lacrimejar intensamente, a ponto de ter lágrimasescorrendo pelos cantos dos olhos, descendo em direção dos ouvidos, posto que se encontravadeitado. Não conseguia nada além de flexionar os dedos doloridos das mãos. Os artelhosestralaram e também doeram na primeira flexão. Fechou os olhos. Abertos ou cerrados eraindiferente. Nada tinha além da escuridão absoluta e do desprazer da consciência. Uma únicacoisa diferia com os olhos fechados. Uma ponta de segurança. O medo diminuía. Era comomergulhar num canto seguro. Imaginar proteção. Voltava a um lugar conhecido. Voltava paradentro de sua cabeça. O peito doía. Tentou lembrar-se da noite passada. O que tinha feito antesde dormir? O que tinha comido? Pizza da Tomanik? Um Tchê Filet? O medo voltava a crescer.Desespero. Não conseguia lembrar. Não conseguia. Não tinha memória! Não tinha vida!

A partir daí, acompanhamos o trigésimo em sua saga para reunir os outros Bentos e fazer cumprir a profecia. E é aí que, apesar das boas tiradas e do crescente clima de suspense, o autor comete alguns deslizes (pelo menos, a meu ver).

É interessante a maneira em que o autor nos mostra um mundo pós-apocalíptico, onde as máquinas cedem lugar à manufatura e, uma vez que não há poluição, as florestas e animais crescem a ponto de se tornarem tão perigosos quanto os vampiros. Na velha premissa de “há males que vêm para o bem”, Vianco tenta nos mostrar que, mesmo na maior das diversidades, encontramos motivos para continuar vivendo.

E, apesar da “noite eterna” ter atingido o mundo inteiro, todos os 30 Bentos são brasileiros (!!!). Não é algo que comprometa a leitura ou a história do livro, mas é uma “licença poética” um pouco forçada. Talvez tenha sido a solução adotada pelo autor para poder reunir 30 pessoas num mundo sem meios de comunicação, com combustível racionado e contando apenas com alguns veículos pequenos como meio de transporte.

O livro, obviamente, termina com algumas pontas soltas, mas nada que impeça sua leitura isolada. Apesar de alguns “saltos” na narrativa, que deveriam ter sido melhor trabalhados, o livro nos traz uma leitura fluida e nos mantém presos na saga de Lucas em sua busca por reunir todos os Bentos e tentar fazer cumprir a profecia (apesar das, cada vez mais constantes, falhas de revisão).

Nota: 7,0

Ficha Técnica
Editora: Novo Século
Autor: André Vianco
Número de páginas: 520

[Resenha] Contos fantásticos do século XIX

Então o miserável Eustache começou a gritar tão alto e a chorar tão amargamente que dava uma grande pena.

“Puxa vida!, meu caro amigo”, disse-lhe mestre Gonin. “por que se revoltar assim contra o destino?”

“Minha mãe do céu! Falar é fácil”, Eustache soluçou, “mas quando a morte está aí bem perto…”

“Ora essa! Afinal, o que é a morte, que a gente deve se espantar tanto?…Considero que a morte não vale um tostão furado! ‘Ninguém morre antes da hora!’, disse Sêneca, o Trágico. Será que você é o único vassalo dessa dama da foice? Eu também sou, e aquele ali, e um terceiro, um quarto. Martin, Philippe! A morte não tem respeito por ninguém! É tão atrevida que condena, mata, e pega indistintamente papas, imperadores e reis, assim como prebostes, policiais e outros canalhas do gênero. Portanto, não se aflija por fazer o que todos os outros farão mais tarde; a situação deles é mais deplorável que a sua; pois, se a morte é um mal, só é mal para aqueles que têm que morrer. Assim, você só sofrerá mais um dia desse mal, e a maioria dos outros sofrerá vinte ou trinta anos, e ainda mais. Um antigo dizia: ‘A hora que lhe deu a vida já a diminuiu’. Você está na morte enquanto está na vida, pois quando não está mais em vida você está depois da morte; ou, melhor dizendo, e para melhor terminar: a morte não lhe concerne nem morto nem vivo, vivo porque você existe, morto porque não existe mais! Que esses argumentos lhe bastem, meu amigo, para encorajá-lo a beber esse absinto sem fazer careta, e daqui até lá medite ainda sobre um belo verso de Lucrécio, cujo sentido é o seguinte: ‘Viva tanto tempo quanto puder, você nada tirará da eternidade da sua morte!’.”

contos fantasticos

O livro, organizado por Ítalo Calvino, está dividido em duas partes. Na primeira, o “fantástico visionário”, com contos das primeiras décadas do século (XIX, bem entendido), predominam as figuras sobrenaturais que se materializam, enquanto que na segunda, o “fantástico cotidiano”, o fantástico é menos concreto, dando-se ênfase às sugestões psicológicas.

Como Calvino cita em sua introdução, “o elemento sobrenatural que ocupa o centro desses enredos aparece sempre carregado de sentido, como a irrupção do inconsciente, do reprimido, do esquecido, do que se distanciou de nossa atenção racional. Aí está a modernidade do fantástico e a razão da volta do seu prestígio em nossa época”.

Os autores presentes nesta coletânea são: Jan Potocki – Joseph von Eichendorff – E. T. A. Hoffmann – Walter Scott – Honoré de Balzac – Philarète Chasles – Gérard de Nerval – Nathaniel Hawthorne – Nikolai V. Gogol – Théophile Gautier – Prosper Mérimée – Joseph Sheridan Le Fanu – Edgar Allan Poe – Hans Christian Andersen – Charles Dickens – Ivan S. Turguêniev – Nikolai S. Leskov – Auguste Villiers de l’Isle-Adam – Guy de Maupassant – Vernon Lee – Ambrose Bierce – Jean Lorrain – Robert Louis Stevenson – Henry James – Rudyard Kipling – Herbert G. Wells.

Nota: 8,5

Ficha Técnica
Editora: Companhia das Letras
Autor: Vários (org. Ítalo Calvino)
ISBN: 8535905022
Ano: 2004
Número de páginas: 520

[Resenha] Os Deuses têm Sede

Vejo, cidadão Gamelin, que, revolucionário por tudo quanto há na Terra, é, quanto ao Céu, conservador e mesmo reacionário. Robespierre e Marat são-no tanto como o senhor. E acho singular que os franceses, que já sofrem de rei mortal, se obstinem em guardar um imortal muito mais tirânico e feroz. Pois o que é a Bastilha, e mesmo a câmara-ardente, junto do Inferno? A humanidade copia os seus deuses dos seus tiranos, e o senhor, que rejeita o original, guarda a cópia!

capa

Em que ponto a virtude humana se transforma em obsessão cega e doentia? É o que Anatole France tenta nos mostrar em “Os Deuses têm Sede”, livro em que narra, desde seu ponto de vista, o ocorrido na França logo após a Revolução Francesa e durante a Era do Terror, período compreendido entre 31 de maio de 1793 (queda dos girondinos) e 27 de julho de 1794 (prisão de Maximilien de Robespierre, ex-líder dos Jacobinos). Durante esse período as garantias civis foram suspensas e o governo revolucionário, controlado pela facção da Montanha dentro do partido jacobino, perseguiu e assassinou seus adversários (um número indeterminado, entre 16.000 e 40.000 pessoas foram guilhotinadas). [Fonte: Wikipedia]

Gamelin, um cidadão do povo, pintor fracassado, que só tem como princípio o Amor à França (e, em segundo plano, à sua mãe e à sua amada), um oposicionista cada vez mais ferrenho da aristocracia e da nobreza, vê-se alçado a jurado nos tribunais que condenavam os (mas não necessariamente) simpatizantes do antigo regime à guilhotina. Sua sede por justiça e a necessidade de se expurgar todo o antigo mal de sua França. acaba fazendo com que ele e seus pares passem a condenar, indiscriminadamente, todo aquele que fosse “julgado” nos tribunais populares.

Sua sede por justiça acaba por transformar-se em uma sede de sangue que, como a dos deuses, precisava ser saciada. E Madame Guilhotina, como governanta cruel do novo regime, tinha que ser abastecida cada vez mais para que pudesse atender a seus senhores. Até que os julgadores passaram a ser julgados…

“Os Deuses têm Sede”, escrito em 1912, é uma obra fundamental para aqueles que querem entender um pouco mais sobre a Revolução Francesa e até que ponto seus ideais foram colocados em prática.

Nota: 8,0

Ficha Técnica
Título original: Les dieux ont soif
Editora: Boitempo Editorial
Autor: Anatole France
ISBN: 9788575590119
Ano: 2007
Número de páginas: 256

[Resenha] Lobão – 50 anos a mil

lobão

A autobiografia de Lobão é o que se deveria esperar de uma obra do polêmico artista: contestatória, verdadeira, contada sem falsos pudores e mostrando os podres, as rixas e as amizades adquiridas em seus 50 anos de vida e doideiras.

As histórias contadas por ele são, ao mesmo tempo, engraçadas e trágicas. A leitura é fluida e rápida (até onde pode ser rápida a leitura de um livro com mais de 700 páginas). Em alguns momentos, podemos (aqueles de nós que têm idade suficiente para isso) nos ver vivendo aqueles momentos descritos no livro: o surgimento das bandas que estouraram na década de 80, alavancando o cenário rock nacional, as músicas, os álbuns, as brigas de Lobão com a imprensa, a justiça, a classe artística e as gravadoras, para ver seu projeto de numeração seriada dos discos (sim, ainda eram discos) colocada em prática e sua ida para o lado independente, ajudando a lançar artistas ainda não tão conhecidos do público. Mas…

Minha vontade aqui era dizer que o livro é muito mal escrito. Foi reformular, dizendo que não gostei de como o livro foi escrito. Logo no início, Claudio Tognolli, o jornalista que escreve a obra junto com Lobão, nos adverte que manteve a maneira peculiar do discurso de Lobão na escrita do livro. Infelizmente, acho que isso não ajudou muito, uma vez que temos muitas idas e vindas, encontrando comentários que só serão aprofundados mais adiante no texto, gerando uma certa confusão e fazendo com que nos percamos um pouco no desenrolar da história.

Um outro ponto negativo do livro é que está repleto de erros de revisão. No ramo editorial, hoje, encontramos muito poucas editoras que dão valor a uma revisão bem feita, os erros são mais comuns do que se poderia esperar, mas, neste livro, temos a impressão que não houve nenhum cuidado em relação ao tema e, se levarmos em conta que a ficha técnica do livro elenca dois revisores, os erros encontrados só acentuam ainda mais essa má impressão.

De qualquer maneira, apesar dos erros em demasia e da maneira ímpar de como o livro é escrito, vale a leitura para conhecer um pouco mais da história recente do rock nacional.

Rio, Junho, 1984.

Quatro da manhã, cemitério do Caju… Madrugada fria e a gente não parava de chorar… Escondidos, perambulando feito fantasmas, arrastando corrente, pelos cantos do velório… almas penadas.

Àquela hora, não havia mais ninguém na sala com o Júlio, exceto eu e Cazuza, que, por todos os motivos do mundo, não conseguíamos parar de olhar para o caixão fechado, nem parar de chorar, nem deixar de ir ao banheiro cheirar mais, pra continuar chorando: “Perder um cara como o Júlio é como uma decapitação… A gente ficou órfão do nosso irmão mais velho”, sussurrei para um Cazuza igualmente desmoronado, que me respondia: “Órfãos e fudidos, você quer dizer”, e emendou: “Vão chupar a nossa carótida…” Sim, essas visões sombrias já pairavam no ar o tempo todo.

Não parávamos de imaginar as consequências daquela perda. A minha desolação era inédita; nunca estive me sentindo tão dentro do fim, tão nada e com a alma sangrando. Vomitava meus pavores:

“Agora estamos à deriva. A gente naufraga aqui. Esse velório, esse cemitério, essa morte é como se estivéssemos chegando nas portas do inferno. A partir de agora, todas as nossas esperanças serão deixadas do lado de fora. Todas as esperanças de conquistarmos a nossa autonomia, a nossa estética. Perdemos o trem da história, Cazuza. Sem o Júlio nós não temos mais uma turma; agora somos um monte de ninguéns!… Chegou a hora dos nossos inimigos se apoderarem da cena pra formar alianças, justamente com aqueles que mais queríamos ver longe. É a hora do pastiche e da indulgência… A hora do frenesi dos mesmos cadáveres insepultos de sempre, sugando a juventude dos que nada mais têm a oferecer, além do próprio sangue de barata. É a hora dos come‑quieto nos fazerem de vilões. É a hora da morte da possibilidade da transformação, da morte da nossa ingênua esperança em querer mudar o mundo. É a hora da morte da liberdade do delírio… O Universo não conspira mais a nosso favor. O inferno é aqui e agora, e nossas esperanças ficaram num céu natimorto.”

Estava delirantemente transtornado pela dor e vagamente anestesiado pela cocaína; sem que necessariamente estivesse inteiramente fora do meu juízo.

O Júlio era um homem‑arquivo, um poço das mais variadas informações. Um ser de uma inteligência prodigiosa, de grande coragem e inspiração; um articulador.

Era um esteta, e perseguia obsessivamente a novidade, digerindo tudo que estava ao seu alcance, sem barreiras, sem dogmas. Fora a sua alegria… O Júlio era um grande poeta, uma criatura engraçadíssima, uma aventura ambulante, um sexista, um sátiro e, antes de qualquer coisa, um amigo raro.

Com tudo isso passando pela cabeça, naquele velório, suor e lágrimas se fundiam. O silêncio se desfazia com o cantar dos passarinhos, que despertavam com o dia a me causar calafrios. Na sala, o caixão fechado invocava toda uma angústia da incapacidade em não poder dar o último abraço, o último beijo. Daí pensei: “Cazuza, pensa bem: tá todo mundo dormindo, a gente tá aqui sozinho, com ele… Vamos sublimar a paradinha. Vamo esticar duas carreironas em cima do caixão? Pelo menos essa kartirinha da Ordem dos Músicos vai servir pra alguma coisa. A gente não pode se negar a fazer isso, né?” Eu fungava, apalpando freneticamente os bolsos.

“Vai ser nossa última homenagem… Não tem ninguém olhando… Vamo nessa, rapá!”

“Lobãothinho”, Cazuza de vez em quando me chamava assim, ciciando, “tá bom, vamos nessa. Mas será que não vão pegar a gente com o canudo no nariz?”

“Claro que não, bobo. Tá todo mundo cansadão, dormindo pelos cantos. E se alguém nos flagrar, vai pensar que tá tendo um visual causado pela estafa e pelo sofrimento. Além do mais, isso aqui é uma licença poética!” Depois de algum tempo tremelicando, consegui tirar a tampa de Minalba do bolso, cheia de cocaína, despejar no verso da kartira azul e pousá‑la em cima do caixão. Estiquei diligentemente duas enormes lagartas que reluziam a brilhar naquela insólita superfície — que naquele instante, em todo o seu conjunto, mais parecia uma instalação de arte contemporânea —, e passei o canudo de caneta Bic pro Cazuza: “Vai nessa, meu irmão. Pensa que é pro Júlio.” Ele me deu uma risada meio amarga, meio úmida, deu uma cafungada forte e, sem
perder o fôlego, me passou o canudo secando a narina no antebraço, dizendo baixinho: “A gente é muito louco! A gente é maluco…” Pausa. Mais uma risadinha canalha e emenda: “Mas também, o que nos resta?!” Respirei um pouco pra pegar um ar depois do catranco e, me dirigindo a um Júlio que, nesse exato momento, parecia descer das nuvens, todo de branco, como sempre gostava de se trajar, a nos abençoar, escancarando um sorriso de quem está pronto para gritar para seus irmãozinhos — “Aleluia, rapeisy!” —, contrito, lhe prometi: “Meu amigo, você vai sempre estar com a gente, você vai sempre estar vivendo dentro da gente, pode crer!”

Recebemos um fluxo de energia poderoso. Um momento ritual. A partir de então, a minha vida se resumiria em antes e depois daquele instante. A morte do Júlio Barroso foi um marco: existia o antes e o depois daquela perda. Não só para mim, mas para toda a história.

E olhando pro Cazuza, inflado de amor, arrematei: “E tem outra, rapá, não vão derrubar a gente assim tão mole, não! Vamos em frente, mesmo porque a morte do Júlio não vai ser em vão. A nossa vida não pode ser em vão, e, se nada pode deter uma pessoa feliz, nada poderá nos deter, pois a nossa história vai ser cada vez mais… cada vez mais…” Chorava copiosamente. Diante daquele vazio, gaguejando mentalmente, tentando pinçar na cabeça o que poderia ser “cada vez mais”, arrematei: “INTENSA!!!!” E não satisfeito, prossegui: “e cada vez mais… DIVERTIDA!!!!” E concluí: “A nossa onda de amor não há quem corte!!” Chacoalhando de emoção, abracei com toda a força o caixão.

Talvez tenha sido ali, naquele momento surreal, que nasceu não só uma vontade, mas um compromisso tácito entre meus amigos de que, uma vez sobrevivendo, eu deveria contar toda a história. Uma saga à procura de um lugar a que se pertencer… Eu precisava, através de um juramento, me motivar o bastante para não ver nossos sonhos serem sepultados com meus amigos.

Preparem‑se porque, a partir de agora, vou contar uma história de amor louca, insólita, humana, demasiadamente humana, imprevisível, improvável, mas bem real: a história da minha vida, que se mescla e se confunde com a da minha geração, do nosso país e de nosso tempo. Não se trata de uma simples narração de um passado longínquo, morto e enterrado, fruto de um devaneio nostálgico. É uma história cheia de vida, de intensidade e de revelações, que incide no presente e se projeta em direção ao futuro.

Portanto, não se enganem: o melhor ainda está por vir, pois essa promessa eu fiz aos meus amigos, ao pé de suas lápides. E tenham a certeza absoluta de que a cumprirei à risca.

Nota: 7,0

Ficha Técnica
Editora: Nova Fronteira
Autor: Lobão (com Claudio Tognolli)
Número de páginas: 752

[Resenha] Produto

produto

Depois de séculos de espera, devido à greve dos Correios, eis que recebo minha cópia do “Produto”, de Rafael Química (também conhecido como Rafael Cândido de Oliveira), HQ produzida pelo próprio autor após a participação em um curso de produção de quadrinhos autorais.

Abro o envelope e, confesso, minha primeira impressão foi de desapontamento: uma revista pequena e com meia dúzia de páginas (tá bom, 16). Após uma rápida folheada, mais decepção: umas poucas páginas com 2 linhas de 3 quadrinhos cada, sem texto, impressa em PB com a aplicação de mais uma cor em alguns quadros, que daria para “ler” em 30 segundos (sem nenhum exagero). Meu primeiro pensamento: isso deve ser uma porcaria!

Um amigo meu diz que sou a única pessoa que ele conhece que compra (e lê) qualquer tipo de quadrinhos, seja do mainstream ou independente e conhece coisas de que ele (e muita gente) nunca ouviu falar. Pra fazer jus a essa reputação, deixei minha primeira impressão de lado (já que, ao contrário do que dizem, no final, não é ela que fica) e peguei a revista para ler.

Produto

É impressionante como num mundo de publicações cada vez mais luxuosas, com capas duras e vendas em livrarias, alguns autores conseguem fugir do lugar comum e bancar, sozinhos ou com a ajuda de amigos às vezes desconhecidos (vide o caso do “Achados e Perdidos”) uma publicação autoral, com pequenas tiragens e que fazem circular através do boca-a-boca (ou, pra ser mais moderno, do blog-a-blog).

A revista é pequena, com capa em papel kraft e (me pareceu) impressa em serigrafia, lembrando uma embalagem, com código de barras, sinais de “frágil” e “este lado para cima” e com os contatos do serviço de atendimento ao cliente. É composta por duas histórias, que na verdade é apenas uma, mas contada a partir de dois pontos de vista distintos. A primeira história, contada do ponto de vista do produto do título, que sonha em ficar famoso; e a segunda, contada pelo produtor, que busca fazer dinheiro com seu produto, pra, simplesmente, poder sobreviver.

Pra definir a revista em uma palavra: maravilhosa! Não vou aqui tentar elocubrar sobre a intenção do autor em escrevê-la e que tipo de mensagem quis passar para seus leitores. Eu a entendo como uma crítica a uma sociedade consumista, dita “formadora de opinião”, que cria ícones sem saber como, à custa de sem saber quem se matou para que ela pudesse desfrutar do melhor que a vida tem a oferecer (e, para ser sincero, tenho que me enquadrar em tal classificação, assim como a maioria dos que, por ventura, estejam lendo isto aqui, queiramos ou não).

Devoramos, vorazmente, produtos que nos dizem que devemos consumir (inclusive aqueles que deram seu suor para produzi-los, mas que não conseguem desfrutar dos mesmos), criando ícones de consumo que se hiper-valorizam a cada dia que passa e que são consumidos cada vez mais por cada vez menos (falo de pessoas, não de custo). Enquanto isso, num reino muito, muito distante, as pessoas fazem verdadeiros malabarismos (ás vezes, literalmente) para poder colocar na mesa o pão deles de cada dia.

Ricardo sabe a que veio, e nos diz isso com poucas palavras (ou melhor, com nenhuma). “Produto” foi uma grata surpresa, como tantas outras que têm surgido cada vez mais a cada dia que passa, e faço votos que Rafael nos brinde, em breve, com mais produtos banhados nessa sua química que nos coloca para pensar e agradecer por poder consumi-los.

Pedidos diretamente com o autor, via e-mail ou através de seu blog.

Nota: 9,0

Ficha Técnica
Autor: Ricardo Química
Formato: 10 x 14 cm
Número de páginas: 16
R$5,00 + frete

[Resenha] O Poderoso Chefão

puzo

Algum dia, e esse dia talvez nunca chegue, eu lhe pedirei que me faça um serviço em troca.

Se você não viveu em Marte pelos últimos 30 anos, você já ouviu falar deste livro (e, com certeza, já viu a trilogia de Coppola).

O livro de Puzo é um brilhante relato da ascensão, influência e poder da Máfia siciliana nos EUA da década de 40, principalmente em Nova York, ao acompanhar o cotidiano da Família Corleone e seu envolvimento com atividades ilícitas, como a exploração da jogatina e o comércio de ilegal de bebida durante a Lei Seca, encobertos por meios “legais” como o controle de sindicatos e a exploração da construção civil e da indústria têxtil.

Como Don de uma das 5 principais famílias mafiosas que controlavam o país na época, Vito Corleone construiu seu império através da violência, eliminando, literalmente, a concorrência, mas, principalmente, construindo uma sólida rede de “amigos”, controlando políticos, sindicalistas e policiais, na base da troca de favores que poderiam, ou não, algum dia ser cobrados.

Apesar de chefe máximo de uma organização criminosa, Don Vito orgulha-se de seu conservadorismo em assuntos como sexo e negócios. A partir da entrada cada vez maior de entorpecentes no território americana, era questão de tempo até a Família ser chamada a tomar uma posição sobre o assunto. Chamado a dar sua proteção ao tráfico e comércio de drogas, o Don recusa-se polidamente. Mas, como sua influência política era essencial para o negócio transcorrer com o mínimo de riscos possível, sua recusa dá início a uma tentativa de eliminá-lo para que seu filho mais velho, Sonny, mais favorável ao novo negócio, assuma o controle da Família.

Com Vito Corleone internado (em vez de morto), Sonny assume o controle da Família e, então, é deflagrada uma guerra entre as 5 Famílias, acarretando na morte do próprio Sonny, a volta de Don Vito ao controle da organização para estabelecer a paz entre as Famílias e a inserção forçada de Michael, filho mais novo do Don, nos negócios do pai, até assumi-los por completo, tornando-se o novo Don Corleone.

Como em todo livro, que não se limita ao período de tempo de um filme (mesmo que seja uma trilogia), os detalhes são mais abundantes e saborosos. Ao se centrar em determinados personagens por vez, Puzo nos mostra um amplo painel da Família Corleone, de seus integrantes e daqueles que estão sob sua influência. O livro narra os acontecimentos mostrados no primeiro e parte do segundo filmes da trilogia, mostrando-nos fatos que sequer são mencionados nos mesmos e permitindo um maior aprofundamento, por parte do autor, na construção dos personagens e da trama (ou melhor: o primeiro e parte do segundo filmes é que têm seus roteiros baseados no livro). O autor, inclusive, foi responsável pela adaptação do livro para a tela, pela qual ganhou um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, junto com Coppola.

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Seja lendo o livro ou vendo os filmes (ou ambos), O Poderoso Chefão é uma excelente pedida para conhecer melhor a formação da sociedade norte-americana após a 2ª. Guerra Mundial e a influência e importância que a Máfia italiana tiveram no desenvolvimento do país (e, talvez, ainda tenham). Para o bem ou para o mal!

Em seu antigo jardim, Michael Corleone descobriu as raízes de onde proviera seu pai. Que a palavra “Máfia” originalmente significava lugar de refúgio. Depois tornou-se o nome de uma organização secreta que surgiu para lutar contra os diligentes que haviam esmagado o país e seu povo durante séculos. A Sicília era uma terra que havia sido mais cruelmente martirizada do que qualquer outra na história. A Inquisição torturara igualmente pobres e ricos. Os barões
proprietários de terras e os príncipes da Igreja Católica exerciam o poder absoluto sobre os pastores e agricultores. A polícia era o instrumento do seu poder e se achava tão identificada com eles que chamar alguém de policial é o maior insulto que um siciliano pode pronunciar contra outro.

Ante a selvageria desse poder absoluto, o povo sofredor aprendeu a nunca trair sua raiva e seu ódio com medo de ser esmagado. Aprendeu a nunca se tornar vulnerável pronunciando qualquer sorte de ameaça, já que dar tal aviso era garantir uma represália rápida. Aprendeu que a sociedade era inimiga dele e assim quando alguém queria vingar agravos ia ao subterrâneo rebelde, a Máfia. E a Máfia consolidou o seu poder dando origem à lei do silêncio, a omertà. Na zona rural da Sicília, um forasteiro pedindo informação sobre a cidade mais próxima não
receberá nem a cortesia de uma resposta. E o maior crime que qualquer membro da Máfia podia cometer era dizer à polícia o nome do homem que o baleou ou lhe fez qualquer espécie de dano. A omertà se tornou a religião do povo. A mulher cujo marido foi assassinado não dirá à polícia o nome do assassino do marido, nem mesmo o do assassino do seu filho, o do violentador de sua filha.

A justiça nunca vinha por parte das autoridades e assim o povo sempre recorrera à Máfia de Robin Hood. E até certo ponto, a Máfia ainda cumprira esse papel. O povo se voltava para o seu capo-mafioso local em busca de auxílio, em qualquer emergência. Ele era o seu assistente social, o seu delegado de distrito que estava à sua disposição mediante uma cesta de comida e um emprego, o seu protetor.

(…)

Michael Corleone compreendeu pela primeira vez por que homens como o seu pai haviam optado por serem ladrões e assassinos em lugar de membros da sociedade legal. A pobreza, o medo e a degradação eram tão grandes que não podiam ser aceitos por alguém de consciência. E na América muitos imigrantes sicilianos acreditavam que lá a autoridade seria igualmente cruel.

Nota: 9,5

Ficha Técnica
Título original: The Godfather
Editora: Bestbolso
Autor: Mario Puzo
Número de páginas: 658

[Resenha] Só Garotos

Muito já se falou sobre Robert, e outras coisas ainda serão ditas. Os rapazes imitarão seu jeito de andar. As garotas usarão vestidos brancos e chorarão por seus cabelos cacheados. Ele será condenado e adorado. Seus excessos serão malditos e romanceados. Por fim, descobrirão a verdade em seu trabalho, o corpo físico do artista. Isso não se afastará. Os homens não podem julgá-lo. Pois é a Deus que a arte canta, e afinal pertence a ele.

capa

Em “Só Garotos”, a cantora Patti Smith faz um relato cru e emotivo de sua vida com o fotógrafo Robert Mapplethorpe na Nova York dos anos 60 e 70 e seu relacionamento com anônimos e lendas vivas do mundo underground americano, desde sua juventude, onde dividia a rua com mendigos e contava os centavos para poder sobreviver, até sua ascensão a estrela do rock americano.

O livro foi uma promessa que Patti fez a Robert antes deste morrer de Aids, em 1989. O resultado é uma ode ao amor verdadeiro, tanto a Robert quanto aos ideais e aspirações de vida, permeados de fatos e anedotas da época. A aspiração de um em se tornar um artista reconhecido por seu trabalho e talento, acaba por levar o outro a trilhar caminhos antes não considerados como possibilidades.

Descobertas sobre sexualidade, amizade, amor e morte são entrelaçadas por um relato biográfico autêntico e sem rodeios da época, por uma amizade (e um amor) que transcende o tempo e faz com que duas pessoas continuem unidas para além de todos os problemas que possam surgir. Enquanto ambos vêem o fim prematuro de seus ídolos, a entrega de outros às drogas e aos relacionamentos supérfluos e interessados, Patti e Robert (apesar de inseridos no mesmo contexto social e sujeito às mesmas influências) conseguem, apoiando-se mutuamente, embora nem sempre juntos, trilhar um caminho próprio que os leva, cada vez mais, ao reconhecimento e independência tão almejados.

Leia abaixo um trecho do livro:

Nasci em uma segunda-feira, na zona norte de Chicago, durante a grande nevasca de 1946. Cheguei um dia antes do previsto, e, como todo bebê nascido na véspera do ano-novo, saí do hospital com uma geladeira nova de presente. Apesar dos esforços da minha mãe para me segurar dentro de si, ela começou um difícil trabalho de parto quando o táxi se arrastava ao longo do lago Michigan, através de um turbilhão de neve e ventania. Segundo meu pai, eu era uma coisinha magricela e comprida com broncopneumonia, e ele me manteve viva segurando-me sobre uma tina fumegante de lavar roupa.

Minha irmã Linda veio durante outra nevasca, em 1948. Por necessidade, fui obrigada a crescer e aparecer depressa. Minha mãe passava roupa, enquanto eu ficava sentada no alto da escada da casa onde alugávamos nossos cômodos esperando o entregador de gelo e a última das carroças puxadas por cavalo. Ele me dava lascas de gelo embrulhadas em papel pardo. Eu guardava uma no bolso para dar a minha irmãzinha, mas, quando procurava depois, descobria que havia sumido.
Quando minha mãe ficou grávida do meu irmão, Todd, saímos daqueles cômodos abarrotados em Logan Square e migramos para Germantown, Pennsylvania. Nos anos seguintes moramos em um alojamento temporário feito para funcionários públicos e suas famílias — barracões caiados que davam para um terreno abandonado cheio de flores silvestres. Chamávamos esse terreno de O Canteiro, e no verão os adultos ficavam ali sentados, conversando, fumando cigarros e bebendo licor de dente-de-leão, enquanto nós, crianças, brincávamos. Minha mãe nos ensinou as brincadeiras de sua infância: estátua, pega-pega e seu mestre mandou. Fazíamos colares de margaridas para enfeitar o pescoço e guirlandas para coroar a cabeça. À noitinha, colecionávamos vaga-lumes em vidros de conserva, tirávamos as luzes e fazíamos anéis para os dedos.

Minha mãe me ensinou a rezar; ensinou-me a oração que a mãe dela havia lhe ensinado. “Agora que vou dormir, peço ao Senhor que cuide da minha alma.” À noite, eu me ajoelhava diante de minha caminha enquanto ela ficava de pé, com seu eterno cigarro, ouvindo-me repetir depois dela. Eu só queria fazer minha oração, mas aquelas palavras me perturbavam, e eu a enchia de perguntas. O que é a alma? De que cor ela é? Eu desconfiava de que minha alma, travessa, podia fugir enquanto eu sonhava e não conseguir mais voltar. Fazia de tudo para não pegar no sono, para manter a alma dentro de mim, onde era seu lugar.

Talvez para satisfazer minha curiosidade, minha mãe me matriculou na escola dominical. Aprendíamos a decorar versículos da Bíblia e palavras de Jesus. Depois, ficávamos em fila e recebíamos como recompensa uma colherada de mel. Havia uma única colher no vidro para servir a todas as crianças que estavam com tosse. Instintivamente esquivei-me da colher, mas rapidamente aceitei a ideia de Deus. Agradava-me imaginar uma presença acima de nós, em perpétuo movimento, como estrelas líquidas.

Não satisfeita com minha oração infantil, logo pedi a minha mãe que me deixasse fazer minha própria reza. Fiquei aliviada quando não precisei mais repetir as palavras “E, se eu morrer antes de acordar, rezo ao Senhor para minha alma levar”, e pude dizer em vez disso o que estava dentro do meu coração. Assim liberada, eu me deitava na cama junto ao fogão de carvão recitando vigorosamente longas cartas para Deus. Eu não era de dormir muito e devo tê-lo importunado com minhas juras, visões e esquemas intermináveis. Mas, conforme o tempo passou, vim a experimentar um tipo diferente de oração, uma oração silenciosa, que exigia mais escuta do que fala.

Minha pequena torrente de palavras dissipou-se em uma elaborada ideia de expansão e refluxo. Foi minha entrada na radiância da imaginação. Esse processo aumentava especialmente nas febres de gripe, sarampo, catapora e caxumba. Tive todas elas, e em cada uma adquiri o privilégio de um novo nível de consciência. Bem no fundo de mim mesma, com a simetria de um floco de neve girando acima de mim, intensificando-se através das minhas pálpebras, capturei o mais valioso suvenir, um caco do caleidoscópio do céu.

Meu amor pelas orações foi aos poucos se equiparando ao meu amor pelos livros. Eu me sentava aos pés da minha mãe, vendo-a beber seu café e fumar seu cigarro, com um livro no colo. Ela ficava tão absorta que aquilo me intrigava. Ainda antes do jardim de infância, eu gostava de olhar os livros dela, sentir o papel e erguer a folha que cobria as estampas dos frontispícios. Eu queria saber o que havia ali, o que capturava sua atenção tão profundamente.

Quando minha mãe descobriu que eu havia escondido seu exemplar carmesim do Livro dos mártires, de Foxe, embaixo do travesseiro, na esperança de absorver seu significado, ela me fez sentar e começou o trabalhoso processo de me ensinar a ler. Com grande esforço fomos juntas da Mamãe Ganso até o Doutor Seuss. Quando avancei e não precisava mais de instruções, permitiram que eu me juntasse a ela em nosso sofá ultraestofado, ela lendo As sandálias do pescador e eu Os sapatos vermelhos.

Eu era absolutamente fascinada pelos livros. Queria ler todos, e as coisas sobre as quais eu lia criavam novos anseios. Talvez fosse à África oferecer meus serviços a Albert Schweitzer ou, com meu chapéu de guaxinim e chifre de pólvora, defender as pessoas, como Davy Crockett. Eu poderia escalar os Himalaias e viver em uma caverna girando uma roda de preces, mantendo a Terra girando. Mas a necessidade de me expressar era meu desejo mais intenso, e meus irmãos foram os primeiros cúmplices conspiradores nas lavras da minha imaginação. Eles ouviam atentamente as minhas histórias, participavam de bom grado das minhas peças e combatiam bravamente em minhas guerras. Com eles do meu lado, qualquer coisa parecia possível.

Nos meses de primavera, eu estava quase sempre doente e assim condenada a ficar de cama, brigada a ouvir meus camaradas brincando pela janela aberta. Nos meses de verão, os pequenos relatavam à minha cabeceira o quanto de nosso terreno silvestre estava seguro diante do inimigo. Perdemos várias batalhas na minha ausência, e meus soldados exaustos se reuniam ao redor da minha cama e eu lhes dava uma bênção tirada da bíblia de toda criança-soldado, Um jardim de poemas infantis, de Robert Louis Stevenson.

No inverno, construíamos fortes de neve e eu liderava nossa campanha, servindo como general, fazendo mapas e traçando nossas estratégias conforme atacávamos e batíamos em retirada. Travávamos as guerras de nossos avós irlandeses, do laranja e do verde. Vestíamos laranja, embora não soubéssemos nada de seu significado. Eram simplesmente as nossas cores. Quando a atenção esmorecia, eu declarava trégua e ia visitar minha amiga Stephanie. Ela vinha convalescendo de uma doença que eu não entendia o que era, uma espécie de leucemia. Era mais velha do que eu, talvez tivesse doze anos quando eu tinha oito. Eu não tinha muito o que dizer e talvez representasse pouco consolo para ela, no entanto ela parecia adorar a minha presença. Acho que o que realmente me atraía nela não era meu bom coração, mas um fascínio por seus pertences. Sua irmã mais velha pendurava minhas roupas molhadas e nos trazia chocolate quente e bolachas em uma bandeja. Stephanie ficava recostada em uma pilha de travesseiros, e eu contava histórias ou lia quadrinhos para ela.

Eu era fascinada por sua coleção de histórias em quadrinhos, pilhas de revistinhas recebidas ao longo de toda uma infância de cama, todos os números do Superman, da Luluzinha, dos Classic Comics e de House of Mystery. Em sua velha caixa de charutos havia todas as miniaturas da sorte de 1953: uma roleta, uma máquina de escrever, um patim de gelo e talismãs no formato de todos os quarenta e oito estados americanos. Eu era capaz de brincar infinitamente com elas e às vezes, se ela tinha alguma repetida, me dava uma.

Eu tinha um compartimento secreto perto da minha cama, embaixo das tábuas do assoalho. Ali guardava meu estoque — bolinhas de gude conquistadas, figurinhas trocadas, artefatos religiosos que eu salvara de lixeiras católicas: velhos santinhos, escapulários esmaecidos, santos de gesso com mãos ou pés lascados. Ali eu guardava meu espólio vindo de Stephanie. Algo me dizia que eu não devia aceitar presentes de uma menina doente, mas eu aceitava e os escondia, um tanto envergonhada.

Eu havia prometido que a visitaria no Dia dos Namorados, mas não fui. Meus deveres de general para com minha tropa de irmãos e meninos vizinhos eram muitos e havia uma neve pesada a ser transposta. Na tarde seguinte, abandonei meu posto para sentar com ela e tomar chocolate quente. Ela estava muito calada e me implorou que ficasse até pegar no sono.

Bisbilhotei sua caixa de joias. Era cor-de-rosa e, quando você abria, saía uma bailarina que parecia uma fada açucarada. Fiquei tão impressionada com um broche de patins de gelo que o escondi na minha luva. Sentei-me imóvel ao lado dela por um longo tempo, e saí em silêncio quando adormeceu. Escondi o broche em meu esconderijo. Dormi um sono entrecortado a noite inteira, sentindo um grande remorso pelo que havia feito. De manhã eu estava passando muito mal para ir à escola e fiquei na cama, afugentando minha culpa. Jurei devolver o broche e pedir que ela me perdoasse.

No dia seguinte era aniversário da minha irmã Linda, mas não haveria festa nenhuma para ela. Stephanie havia piorado, e meu pai e minha mãe foram ao hospital doar sangue. Quando voltaram, meu pai chorava e minha mãe se ajoelhou do meu lado e me disse que Stephanie havia morrido. A tristeza dela logo deu lugar à preocupação quando pôs a mão na minha testa. Eu estava ardendo em febre.

Nosso apartamento entrou em quarentena. Eu estava com escarlatina. Nos anos 50, era um grande perigo porque geralmente virava uma espécie de febre reumática fatal. A porta do nosso apartamento foi pintada de amarelo. Confinada na cama, não pude ir ao enterro da Stephanie. A mãe dela me trouxe suas pilhas de histórias em quadrinhos e sua caixa de charutos cheia de amuletos. Agora eu tinha tudo, todos os tesouros dela, mas estava mal demais até mesmo para olhar para eles. Foi então que senti o peso do pecado, mesmo de um pecado tão pequeno quanto um broche de patins roubado. Refleti sobre o fato de que não importava quão boa eu aspirava a ser, jamais atingiria a perfeição. Nem jamais receberia o perdão de Stephanie. Mas enquanto fiquei ali, noite após noite deitada, ocorreu-me que seria possível falar com ela rezando por ela ou pelo menos pedindo a Deus que intercedesse por mim.

Robert era muito sensível a essa história, e às vezes em um domingo frio e lânguido ele implorava para eu contá-la outra vez. “Conte a história da Stephanie”, dizia. E eu não poupava nenhum detalhe em nossas longas manhãs debaixo das cobertas, recitando histórias da minha infância, sua tristeza, sua magia, enquanto tentávamos fingir que não estávamos famintos. E sempre, quando eu chegava à parte em que abria a caixinha de joias, ele chorava, “Patty, não…”.

Costumávamos rir de nós mesmos quando crianças, dizendo que eu era uma menina má tentando ser boa e que ele era um bom menino tentando ser mau. Com o passar dos anos esses papéis se reverteriam, depois reverteriam de novo, até que acabamos aceitando nossa natureza dual. Contínhamos princípios opostos, luz e trevas.

Eu era uma criança sonâmbula sonhadora. Irritava meus professores com minha facilidade precoce para a leitura e ao mesmo tempo com uma incapacidade de aplicá-la a qualquer outra coisa que eles considerassem prática. Todos acabavam dizendo em seus relatórios que eu sonhava acordada além da conta, que eu estava sempre em algum outro lugar. Onde ficava esse lugar, não sei dizer, mas muitas vezes me levava para um canto, sentada em um banco alto, onde todos podiam me ver usando um chapéu cônico de papel.

Mais tarde eu faria para Robert grandes desenhos detalhados desses momentos comicamente humilhantes e bem-humorados. Ele adorava, parecia gostar de todas as qualidades que me fastavam ou me isolavam dos outros. Com esse diálogo visual, minhas memórias de juventude se tornaram dele também.

Em tempo: o livro vai ganhar uma adaptação cinemátográfica a cargo de John Logan (O Gladiador, O Aviador) e ainda ganhou o National Book Award, o prêmio nacional da literatura dos Estados Unidos, na categoria não-ficção, em 2010.

Nota: 9,0

Ficha Técnica
Título original: Just kids
Editora: Companhia das Letras
Autor: PATTI SMITH
ISBN: 8535917764
Número de páginas: 240

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