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O morcego voa, mas não pousa

Um bando de estudantes de física da Universidade de Leicester, nas falta de algo melhor pra fazer e querendo mostrar a todos seus conhecimentos das nobres artes (a Física e os Quadrinhos) demonstrou, num estudo, denominado Trajectory of a falling Batman (Trajetória do Batman em Queda, em tradução livre), que a famosa cena de Batman Begins, em que o morcego salta de um prédio e pousa numa boa, seria impossível: para que ele não se esborrachasse no chão, sua capa deveria ser maior do que é, ou deveria utilizar jatos para manter seu vôo ativo.

Caso você esteja interessado e queira saber mais, clique aqui para ler o artigo completo. E veja, aí embaixo, a tal cena do vôo:

 
Visto aqui.

Quantos viveram antes de você?

O site da BBC publicou um artigo de Wesley Stephenson, intitulado Do the dead outnumber the living? (ou, em tradução livre, Será que os mortos superam os vivos?), onde ele pergunta:

A população do planeta atingiu sete bilhões em outubro, de acordo com a Organização das Nações Unidas. Mas e em relação a todos aqueles que viveram antes de nós?

O The Population Reference Bureau, em Washington, tratou de responder a esta pergunta. Apoiados em diversos dados estatísticos (para entender melhor, leia o artigo original aqui), eles criaram uma ferramenta que responde a esta intrigante pergunta.

multidão

Fui testar e descobri que, quando nasci, existiam 3.746.766.874 pessoas vivas no mundo e que fui a 77.914.104.183ª pessoa a nascer desde que o mundo é mundo (ou desde 50.000 AC, o que dá no mesmo). Em nosso país tropical, viviam 196.146.184 pessoas, com uma taxa de 356 nascimentos e 140 óbitos por hora (com uma taxa de crescimento populacional de 0,9%), e com uma expectativa de vida de 75,9 anos para mulheres e 68,7 anos para nós, homens.

E o que é pior (ou melhor, desde seu ponto de vista): a população mundial aumentou em 176 pessoas enquanto eu perdia meu tempo vendo esses dados todos!

Se você ficou curioso e também quiser brincar com os números, é só clicar aqui.

PS: um dado interessante que você pode ver no artigo é que, desde o início dos tempos, já passaram por este mundo 107.602.707.791 pessoas (ou mais de 15 vezes a população mundial atual)!

Graphic Novel Manifesto

O Graphic Novel Manifesto, de Eddie Campbell, de 2004, traduzido por Pedro Moura (em português lá da terrinha):

Há tanta discordância – entre nós – e mal-entendidos – no grande público – em torno do “romance gráfico”, que já é tempo de assentarmos uns quantos princípios.

1. “Romance gráfico” é um termo desagradável, mas utilizá-lo-emos seja como for, para compreendermos que gráfico não tem nada a ver com design gráfico e que romance não tem nada a ver com os romances (tal como “Impressionismo” não é um termo verdadeiramente aplicável pois foi utilizado em primeiro lugar como um insulto, e depois adoptado a modo de provocação).

2. Como não nos estamos a referir de maneira alguma ao tradicional romance literário, não defendemos que o romance gráfico deva ter as mesmas dimensões nem o mesmo peso físico. Assim, termos suplementares como “novela” ou “conto”, etc., não serão aqui empregues, e só servem para confundir os públicos em relação ao nosso fito (ver abaixo), levando-os a pensar que é nossa intenção criar uma versão ilustrada de um determinado nível de literatura, quando na verdade temos bem melhor para fazer, a saber, estamos a criar uma arte completamente nova que não será limitada pelas regras arbitrárias de uma outra velha arte.

3. O “Romance gráfico” representa mais um movimento do que uma forma. Por isso podemos falar de “antecedentes” do romance gráfico, como os livros de xilogravuras de Lynd Ward. Porém, não nos interessa utilizar o termo retrospectivamente.

4. Apesar do romancista gráfico considerar os seus vários antecedentes génios e profetas, sem o trabalho dos quais não poderia ter criado o seu próprio trabalho, não deseja colocar-se permanentemente à sombra do Rake’s Progress de William Hogarth sempre que ganha algum grama de publicidade, quer para si quer para a sua arte em geral.

5. Uma vez que o termo se refere a um movimento, a um evento contínuo, mais do que a uma forma, não há nada a ganhar com uma sua definição ou “medição”. O conceito tem cerca de trinta anos, apesar de tanto este como o nome terem sido utilizados casualmente desde uns dez anos antes. Uma vez que se encontra ainda em crescimento, é bem possível que se tenha alterado totalmente por este mesmo período do ano que vem.

6. O fito do romancista gráfico é pegar na forma da revista de banda desenhada [comic book], que agora apenas nos envergonha, e elevá-la a um nível mais ambicioso e mais significativo. Isto implica normalmente aumentar-lhe o tamanho, mas devemos acautelar-nos para não entrar em disputas sobre quais são os tamanhos aceitáveis. Se um qualquer artista apresentar uma colecção de pequenos contos como o seu novo romance gráfico (tal qual Will Eisner fez com A contract with God, por exemplo), não devemos entrar em picuínhices. Devemos apenas examinar se esse romance gráfico é uma boa ou uma má série de histórias. Se o artista ou a artista utilizar personagens que apareceram noutro sítio, como a presença de Jimmy Corrigan (Chris Ware) em títulos que não o principal, ou as de Gilbert Hernandez, etc., ou até mesmo outras personagens que não desejamos que façam parte da nossa “sociedade secreta”, não os desconsideraremos por essa simples razão. Se o seu livro já não se parecer de modo algum com banda desenhada, também não entraremos em picardias. Basta que nos perguntemos se esse trabalho aumenta ou não a totalidade do conhecimento humano.

7. O termo romance gráfico não será empregue como indicativo de um formato comercial (tal como os termos “brochado” e “cartonado”[“trade paperback”, “hardcover”, “prestige format”]). Poderá tratar-se de um manuscrito inédito ou apresentado em episódios ou partes. O mais importante é o intuito, mesmo que este surja após a publicação original.

8. Os temas dos romancistas gráficos são toda a existência, inclusive as suas próprias vidas. Os artistas desprezam os “géneros” e todos os seus clichés horrorosos, apesar de conservarem uma perspectiva alargada. Ressentem particularmente a noção, ainda prevalecente em muitos sítios, e não sem razão, de que a banda desenhada é um subgénero da ficção científica ou da fantasia heróica.

9. Os romancistas gráficos jamais pensariam em empregar o termo romance gráfico quando se encontram entre os seus pares. Referir-se-iam mais normalmente ao seu “último livro” ou o seu “trabalho em curso”, ou “a mesma treta de sempre”, ou até mesmo “banda desenhada”, etc. O termo deve ser empregue como uma insígnia ou uma bandeira velha que se vai buscar ao ouvir o apelo de batalha, ou quando se o tartamudeia ao perguntarmos pela localização de uma certa secção de uma livraria que não conhecemos. Os editores poderão utilizá-lo as vezes que assim entenderem, até que signifique ainda menos do que o nada que já significa.
Mais, os romancistas gráficos têm bem a noção de que a próxima geração de artistas de banda desenhada escolherão formas o mais pequenas possível e que farão pouco da sua arrogância.

10. Os romancistas gráficos reservam o seu direito a retratar-se de todas as alíneas anteriores, se isso os ajudar a vender mais.

Visto aqui.

A perseguição aos HDs virtuais e a era dos dinossauros

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Reproduzo abaixo o texto originalmente publicado no excelente blog Idéias de Jeca Tatu, de autoria de Gian Danton, com sua devida autorização:

A polêmica da semana na internet é o fechamento do Megaupload e prisão do seu dono. Muitos outros HDs virtuais estão fechando, deletando arquivos ou sendo investigados. É uma verdadeira caça às bruxas. Na dúvida, estão deletando tudo. Três apostilas minhas, por exemplo, foram deletandas do 4shared simplesmente porque eles acham que não sou o dono do direito autoral das mesmas.

Essa guerra me fez lembrar um case narrado pelo All Ries, um dos principais autores da área de Marketing. Ele diz que nenhum fabricante de carroças entrou no mercado de carros porque simplesmente nenhum deles conseguiu se adaptar aos novos tempos. Outro exemplo é a Ollivetti, que dominou quase que sozinha o mercado de máquinas de escrever, mas quase faliu quando surgiram os computadores (recentemente li que ela tinha começado a fabricar calculadoras).

Esse movimento todo é uma reação principalmente das gravadoras, que se acham as mais prejudicadas com a cultura de compartilhamento da internet. Segundo as gravadoras, quem baixa músicas da internet está prejudicando os cantores e destruindo o mercado. Ao invés de se adaptarem aos novos tempos, as gravadores preferem que eles não existam.

Ou seja: é como se os fabricantes de carroças começassem a destruir carros porque eles estão acabando com seu negócio.

Certa vez uma pessoa se aproximou de mim enquanto estava na beira-rio e me ofereceu um CD com a obra completa de Roberto Carlos, em mp3. Achei interessante a proposta, mas preferi comprar um original. Fui à loja e perguntei ao vendedor se tinha para vender toda a obra de Roberto Carlos em mp3. Ele piscou 10 vezes e finalmente disse que eles não trabalhavam com mp3.

Hoje quase todos os carros têm aparelhos com mp3. Os tocadores de música só tocam mp3. Acho que nem existe mais aparelhos exclusivos para formato wave. Mas as gravadoras ainda persistem em vender no formato wave. Se você quiser ouvir sua música predileta, precisará convertê-la ou comprar do pirata da esquina, ou baixar da internet. Em todos os três casos você está cometendo um crime.

Tem lógica? Não.

Outro exemplo são os scans e e-books. Com o sucesso dos tablets, muitas editoras entraram no mercado de e-books vendendo-os quase ao mesmo preço do impresso. Faz sentido, não?

Recentemente um blog chamado Sebo Virtual que disponibilizava apenas material fora de catálogo, principalmente pulps de ficção científica caiu. As editoras não se interesavam mais em publicar os livros, mas forçaram as autoridades a fecharem o blog.

Dizem que o dono do Megaupload ficou rico com seu site. O que eu pergunto é: porque as gravadoras também não ficaram ricas seguindo o mesmo modelo, segundo o qual ninguém precisa para baixar e apenas usuários premium pagam? Simples, porque eles são dinossauros incapazes de se adaptar aos novos tempos. E querem que todo mundo viva na era dos dinossauros.

O artigo original, você pode ver aqui.

Contribuição

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Minha primeira (de muitas, espero) contribuição para o Contra-Argumento: aqui.

Aprendi lendo quadrinhos

Artigo publicado por Giorgio Cappelli no Garagem Hermética Quadrinhos (reproduzido com permissão do autor):

Aprendi lendo quadrinhos – Cultura útil

asterix_obelix

Um dos grandes obstáculos que nós, fãs, entusiastas, criadores e profissionais dos quadrinhos temos de enfrentar é o radicalismo dos intelectualoides. Frases como “Quadrinho é subliteratura”, “Quadrinho é coisa de criança”, “Quadrinho é pra divertir, não pra educar” só servem para mostrar a desinformação desse pessoal.

Há várias empresas no Brasil especializadas na produção de cartilhas educativas, em formato de HQ, que falam sobre segurança no trabalho, combate e prevenção à doenças, uso de camisinhas, entre vários outros temas. Até os personagens do Mauricio de Sousa já figuram nesse tipo de mídia. Com sua linguagem fácil e atraente, as histórias em quadrinhos se prestam muito bem ao didatismo. Até mesmo quando não querem!

Podemos aprender muita coisa lendo quadrinhos. Vamos começar por Asterix. Na página introdutória da série há um mapa e um texto explicando que toda a Gália havia sido ocupada pelos romanos no ano de 50 antes de Cristo, exceto uma aldeia que resiste bravamente aos invasores. Acredite: isso não foi invenção do roteirista René Goscinny. Houve uma tribo de gauleses que enfrentou mesmo os soldados de César! O que muita gente pensa que é piada, é na verdade um fato histórico. Para comprovar, segue um trecho de autoria de Cíntia Cristina da Silva, publicado na revista Aventuras na História:

A Gália toda queimou. Toda? Não! Uma tribo seguiu as orientações do líder rebelde só até certo ponto: destruiu mais de 20 vilarejos em um dia, mas se recusou a ceder a capital, Avaricum (ou Bourges). Foi a luta dessa turma de guerreiros irredutíveis que inspirou a criação de Asterix. “Nunca existiu uma aldeia capaz de opor-se por muito tempo à dominação romana. Mas a resistência de Avaricum, mesmo durando apenas 27 dias, tornou-se célebre já naqueles dias”, diz Anne Bellangier, professora da Universidade Laval, em Quebec, no Canadá.

A cidade era fortificada, tinha alimento suficiente para meses e seus cidadãos eram orgulhosos e organizados. Resolveram ficar e enfrentar os invasores. A essa altura, os romanos, além de derrotar os gauleses, precisavam de comida. César ordenou que Avaricum fosse sitiada. Durante quatro semanas, suas paliçadas de madeira resistiram às catapultas romanas. O exército de César erigiu então torres diante dos muros da cidade. Num dia de tempestade, os defensores foram surpreendidos pelas legiões que saltaram a muralha e invadiram a cidade. “Nem velhos, nem mulheres, nem meninos os soldados pouparam”, escreveu César. Dos 40 mil moradores, apenas 800 sobreviveram.

Fonte: Guia do Estudante Abril

Se algum dia alguém vier lhe dizer, com toda a propriedade, que “o Asterix é uma metáfora da França contra o imperialismo ianque”, pode rir na cara dessa pessoa e acabe com ela citando essa história de Avaricum.

E não acaba por aqui. Cada álbum da coleção traz algum ensinamento proveitoso. Assim, em A Odisseia de Asterix, quando Obelix tenta mergulhar no Mar Morto e não afunda, um guia explica o fenômeno:

Obelix

Em Obelix & Companhia, Asterix recebe, do amigo, aulas de economia. O problema é se fazer entender…

Obelix

Vemos, portanto, que certas histórias em quadrinhos, além de divertir, podem apresentar vários níveis de leitura, interpretação e até mesmo humor. Algumas até corrigem erros de roteiristas de cinema. Quando, em um filme, o personagem afunda dentro de um barco ou carro, ele abandona o veículo e sobe até a superfície o mais depressa que pode. O álbum Vito Mau Agoiro, da série “Spirou e Fantásio”, publicado pela extinta Meribérica, ilustra o enorme perigo de quem toma essa atitude. Na aventura, Spirou descobre, a 35 metros de profundidade, que seu equipamento de mergulho sofreu sabotagem; pior, precisa subir depressa, já que o amigo Fantásio corre perigo. Enquanto Spirou toma as devidas precauções, o narrador ensina: “Trinta e três metros… expulsar o ar… ao subir, dilata-se… evitar a sobrepressão pulmonar…”

Quando o herói chega à tona, mais ou menos são e salvo, tem de passar pelo estágio mostrado a seguir:

spirou

O que me dizem disto, então? A Marvel me ensinou o que não aprendi em nenhuma aula de biologia do colégio: “Vermelha e amarela, esticou a canela! Vermelha e preta, não tem treta!” (Hulk e Wolverine: Seis Horas)

Hulk

Se alguém acha essas informações muito específicas, condições extremas ou acredita que nunca vai mergulhar na água dentro de um carro nem levar picada de cobra coral, passemos então a uma história do Batman com um ensinamento mais prático. Um vigia de armazém encontrava-se a serviço, quando um gatinho surgiu. O vigia pousou-o sobre as pernas e, sentado, passou a acariciá-lo. Instantes depois, deparou-se com um bandido auto-intitulado “Rei dos Felinos” (Karl Kyle, irmão da Mulher-Gato, então supostamente regenerada). Ao levar as mãos à arma, o vigia sentiu uma descarga elétrica que o deixou desnorteado. Isso bastou para o vilão atacá-lo e derrotá-lo.

O que aconteceu? Explica o bandido: o pelo dos gatos acumula eletricidade estática. Depois de acariciar o felino, o vigia tocou no metal da arma e levou um tremendo choque. Evite, então, encostar a mão numa maçaneta, por exemplo, após brincar com seu felino.

Karl-Kyle

Existem vários outros exemplos – com mangás inclusive – que infelizmente não cabem aqui. O que pretendo mostrar é que formadores de opinião e profissionais das áreas de ensino precisam entender que preconceito não se resume a etnias, religiões, cor de pele, disfunções mentais ou físicas – existe o preconceito de ideias, muito mais sutil e arraigado, cometidos por essas pessoas sempre que classificam os quadrinhos como “cultura inútil”..

Giorgio Cappelli é tradutor e autor. Acredita que a verdadeira cultura inútil não são os quadrinhos, e sim as revistas de celebridades. Além disso, acha depreciativo o termo “gibi” para classificar a arte sequencial.

Como Steve Jobs matou os nerds

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Reproduzo aqui um artigo… superinteressante, que foi publicado no site da revista Superinteressante, de autoria de Alexandre Versignassi e Tiago Cordeiro:

Steve Jobs tinha 12 anos e um problema: queria montar um frequenciômetro – aparelho essencial quando você precisa construir seu próprio circuito em casa. O menino não tinha todas as peças que precisava, então decidiu telefonar para alguém que certamente teria: Bill Hewlett, dono da HP. Era a maior empresa da região onde Jobs morava, naquele ano de 1967. Graças à Hewlett-Packard, aliás, aquele lugar na Califórnia, nos arredores de San Francisco, acabaria conhecido como Vale do Silício.

Jobs pegou a lista telefônica, encontrou um “William Hewlett” ali e ligou. O fundador do Vale do Silício e o jovem Da Vinci conversaram por 20 minutos. Jobs conseguiu o que precisava para montar seu frequenciômetro. E não parou mais. Alguns anos depois, conheceu sua cara-metade, outro jovem que sabia tudo de frequenciômetros, osciloscópios e circuitos integrados: Steve Wozniack. Juntos eles criaram um aparelho que enganava os computadores das companhias telefônicas e fazia ligações para qualquer lugar do planeta de graça. Uma vez ligaram para o Vaticano – Wozniak se apresentou como Henry Kissinger e pediu para falar com o papa (Paulo VI não atendeu).

Entre um trote e outro, os dois tiveram contato com o primeiro computador pessoal da história, o Altair 8800. Era basicamente uma supercalculadora, vendida na forma de kit para montar. Jobs e Woz gostaram tanto que resolveram fazer sua própria versão do aparelho e pôr para vender. Desenvolveram um protótipo no quarto de Jobs mesmo e, em 1976, deram a ele o nome de Apple I. Esse primeiro Apple, por sinal, também vinha na forma de kit e não contava com certos luxos, como uma tomada, muito menos teclado, monitor ou gabinete. Era só placamãe,memória… A circuitaria pelada, que eles vendiam por US$ 666,66 (devem ter ficado bravos com o fora do papa…).

Enquanto isso, em Albuquerque, Novo México, outro fã do Altair 8800 montava sua própria empresa: a Microsoft. Bill Gates nunca construiria sua própria máquina, ficaria só nos softwares (e ninguém pode dizer que foi uma má decisão).

Jobs, por outro lado, não esperou nem um ano para lançar o Apple II – desta vez um computador completo. Aí o dinheiro começou a entrar para valer.

E no final dos anos 80 a coisa explodiu. Os computadores não eram mais exclusividade de empresas e centros de pesquisa. As letras verdes sobre as telas pretas estavam em todo lugar. E a cultura nerd também. Ser bitolado agora era algo bacana. Até porque Jobs e Gates viraram magnatas antes dos 30. Passar o dia enfurnado escrevendo software e montando circuitos, então, não deveria ser de todo ruim…

O cinema refletiu bem a onda. Em Jogos de Guerra (1983), Matthew Broderick invade o sistema do Pentágono e quase começa a Terceira Guerra Mundial. Em Mulher Nota 1000 (1985), dois nerds escaneiam páginas da Playboy para criar a garota ideal. Os computadores ainda eram basicamente um equipamento para rodar planilhas de cálculo. Mas, na mitologia urbana da época, alguém nerd o bastante poderia mudar o mundo com aquelas máquinas de 1 MHz e 4 K de RAM.

Siglas assim, até então alienígenas, começavam a entrar no dia a dia. Aprender a operar um Apple II ou um IBM PC era algo que exigia dedicação, mas todo mundo achava natural. Fazia parte do processo de incorporar aquelas máquinas tão complexas que pareciam ter vindo do espaço. E, quanto mais conhecimento técnico você tivesse, mais essas máquinas do espaço fariam por você. Aqueles eram tempos nerds. Não os nossos. Hoje a cultura nerd está morta.

E o assassino foi Steve Jobs. O nerdicídio começou ainda em 1984, quando ele lançou o Macintosh. Era o primeiro computador que qualquer criança podia usar. Ainda assim a cultura nerd continuaria firme: memória RAM e velocidade de processador continuaram sendo assunto de mesa de bar por duas décadas mais. Agora acabou. Você tem ideia de qual é a memória RAM do seu “espertofone”? Pouca gente sabe. E não sabe porque isso deixou de ser importante. A gente não tem como trocar a memória do iPhone ou do iPad para que ele fique mais rápido. A destreza com eletrônicos também não faz mais diferença nenhuma… iPhone e iPad tornaram a nerdice menos necessária.

Um epílogo: aos 12 anos, Fidel Castro mandou uma carta para Franklin Roosevelt pedindo uma nota de dólar – “É que nunca vi uma, presidente”, ecreveu. A história do fundador da Apple, que começou com aquele telefonema para o dono da HP, é ironicamente parecida. Com uma diferença: a revolução de Steven Paul Jobs foi global. E vai durar para sempre.

Visto aqui, via Twiter.

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